Uma luta célebre e simbólica ocorrida em 1909 começa a ser reconstruída em Lado a Lado
a partir de hoje. Na novela das 18h da Globo, que se passa nos anos
1910, o “capoeira” Zé Maria (Lázaro Ramos) sobe num ringue para desafiar
um campeão de jiu-jitsu que visita o Rio de Janeiro a convite da
Marinha brasileira.
| Camila Pitanga nos bastidores da cena: Isabel teme pelo amado, mas acaba engrossando o coro de "Zé! Zé! Zé!" (Divulgação/Fred Rozário) |
Contado com, obviamente, alguns elementos ficcionais, o episódio é
real. Segundo consta, foi vivido por Francisco da Silva Cyríaco, o
maior mestre de capoeira da época. “A capoeira era proibida no Brasil e
os praticantes costumavam ir presos por vadiagem. Por isso, ao desafiar e
vencer o mestre oriental, inclusive diante de autoridades, o
capoeirista passou a mensagem de que a capoeira não poderia continuar
sendo considerada um crime”, explica Marcio Henrique de Oliveira
Barbosa, o mestre Cocoroca, preparador dos atores da novela, nos
bastidores da cena visitados pelo blog.
Ao saber que a Marinha recorre a um lutador japonês para o
treinamento de defesa pessoal, Zé Maria, ex-marinheiro, questiona: “Por
que o jiu-jitsu e não a capoeira que já temos aqui?”
Inconformado, o herói vai até o pavilhão e assiste a Jun Murakami
(Rodrigo Oyie) – apresentado como um lutador de “agilidade
indestrutível” e capaz de “pulos maquiavélicos” – derrubar uma meia
dúzia de fracotes. “Mais algum homem de coragem na plateia?”, provoca o
mestre de cerimônias. É quando Zé, para desespero de Isabel (Camila
Pitanga), entra no ringue.
Mas basta um rabo-de-arraia, o mesmo golpe usado pelo mestre Cyríaco
em 1909, para o capoeira derrotar o japonês. “Pra gente, é muito bacana
poder reproduzir um fato histórico tão pouco conhecido assim, na novela,
e trazê-lo para o grande público”, observa o diretor Vinicius Coimbra,
responsável pela sequência gravada na última sexta no Centro Hípico do
Exército, em São Cristovão (zona norte do Rio).
| Cena foi gravada no Centro Hípico do Exército no Rio, que vestiu cartazes à moda antiga para servir de Pavilhão de Lutas e recebeu 150 figurantes (Divulgação/Fred Rozário) |
Os autores Cláudia Lage e João Ximenes Braga têm se esmerado em
costurar momentos históricos do período na trama que envolve seus
personagens. A Revolta da Vacina (1904) e a Revolta da Chibata (1910),
por exemplo, já foram adaptados e contados pelo folhetim das 18h.
Ao sinal do diretor, a platéia de 150 figurantes grita – “Zé! Zé!
Zé!” –, quando o apresentador diz que “um campeão invicto foi derrotado
por um capoeira”. “Capoeira não é coisa de marginal, não. É coisa de
brasileiro. Precisa de ritmo, força e coragem”, discursa o herói, antes
de receber um beijo da amada, coisa digna dos campeões.
Em cena, estarão ainda os jornalistas Carlos Guerra (Emilio de Mello)
e Jonas (George Sauma), além do protagonista Edgar (Thiago Fragoso)
que, sob pseudônimo, vai assinar um artigo registrando o ocorrido.
Na vida real, aconteceu quase o mesmo. A história foi parar nos
jornais, e o fato de a luta ter sido presenciada por autoridades
militares e de segurança reforçou o questionamento que já se fazia da
proibição da capoeira. Mas a luta, trazida de Angola na época da
escravidão e preservada como tesouro cultural pelos ex-escravos, só
deixaria de ser crime em 1937, durante o governo Getúlio Vargas.
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