terça-feira, 3 de dezembro de 2013

UFC de época: ‘Lado a Lado’ reproduz luta emblemática de 1909.




Zé Maria e Jun Murakami lutam em 'Lado a Lado': nas cenas com o judoca Rodrigo Oyie, Lázaro, que foi batizado na capoeira como o "Zé Navalha" da novela, gravou quase tudo sem dublê (Divulgação/Fred Rozário))















Uma luta célebre e simbólica ocorrida em 1909 começa a ser reconstruída em Lado a Lado a partir de hoje. Na novela das 18h da Globo, que se passa nos anos 1910, o “capoeira” Zé Maria (Lázaro Ramos) sobe num ringue para desafiar um campeão de jiu-jitsu que visita o Rio de Janeiro a convite da Marinha brasileira.

Camila Pitanga nos bastidores da cena: Isabel teme pelo amado, mas acaba engrossando o coro de "Zé! Zé! Zé!" (Divulgação/Fred Rozário) 
Contado com, obviamente, alguns elementos ficcionais, o episódio é real.  Segundo consta, foi vivido por Francisco da Silva Cyríaco, o maior mestre de capoeira da época. “A capoeira era proibida no Brasil e os praticantes costumavam ir presos por vadiagem. Por isso, ao desafiar e vencer o mestre oriental, inclusive diante de autoridades, o capoeirista passou a mensagem de que a capoeira não poderia continuar sendo considerada um crime”, explica Marcio Henrique de Oliveira Barbosa, o mestre Cocoroca, preparador dos atores da novela, nos bastidores da cena visitados pelo blog.
Ao saber que a Marinha recorre a um lutador japonês para o treinamento de defesa pessoal, Zé Maria, ex-marinheiro, questiona: “Por que o jiu-jitsu e não a capoeira que já temos aqui?”
Inconformado, o herói vai até o pavilhão e assiste a Jun Murakami (Rodrigo Oyie) – apresentado como um lutador de “agilidade indestrutível” e capaz de “pulos maquiavélicos” – derrubar uma meia dúzia de fracotes. “Mais algum homem de coragem na plateia?”, provoca o mestre de cerimônias. É quando Zé, para desespero de Isabel (Camila Pitanga), entra no ringue.
Mas basta um rabo-de-arraia, o mesmo golpe usado pelo mestre Cyríaco em 1909, para o capoeira derrotar o japonês. “Pra gente, é muito bacana poder reproduzir um fato histórico tão pouco conhecido assim, na novela, e trazê-lo para o grande público”, observa o diretor Vinicius Coimbra, responsável pela sequência gravada na última sexta no Centro Hípico do Exército, em São Cristovão (zona norte do Rio).

Cena foi gravada no Centro Hípico do Exército no Rio, que vestiu cartazes à moda antiga para servir de Pavilhão de Lutas e recebeu 150 figurantes (Divulgação/Fred Rozário)

Os autores Cláudia Lage e João Ximenes Braga têm se esmerado em costurar momentos históricos do período na trama que envolve seus personagens. A Revolta da Vacina (1904) e a Revolta da Chibata (1910), por exemplo, já foram adaptados e contados pelo folhetim das 18h.
Ao sinal do diretor, a platéia de 150 figurantes grita – “Zé! Zé! Zé!” –, quando o apresentador diz que “um campeão invicto foi derrotado por um capoeira”. “Capoeira não é coisa de marginal, não. É coisa de brasileiro. Precisa de ritmo, força e coragem”, discursa o herói, antes de receber um beijo da amada, coisa digna dos campeões.
Em cena, estarão ainda os jornalistas Carlos Guerra (Emilio de Mello) e Jonas (George Sauma), além do protagonista Edgar (Thiago Fragoso) que, sob pseudônimo, vai assinar um artigo registrando o ocorrido.
Na vida real, aconteceu quase o mesmo. A história foi parar nos jornais, e o fato de a luta ter sido presenciada por autoridades militares e de segurança reforçou o questionamento que já se fazia da proibição da capoeira. Mas a luta, trazida de Angola na época da escravidão e preservada como tesouro cultural pelos ex-escravos, só deixaria de ser crime em 1937, durante o governo Getúlio Vargas.

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